Primeira vez em São Paulo
janeiro 26th, 2012 § Deixe um comentário
Agora que ninguém mais fala da aniversariante São Paulo. Agora que não se celebra mais sua natureza mutante, sua variada gastronomia, seus contrastes de cinza e alegria [e outros chavões]. Agora que prédios desabaram no Rio e miseráveis saíram espancados do Pinheirinho. Agora que, enfim, o noticiário e a vida cotidiana viraram a página, implacáveis:
agora aproveito para voltar minha atenção à cidade.
Curitibano dos pés à cabeça [principalmente na cabeça, porque Curitiba é uma cidade que se forma na cognição, e não na experiência empírica], cheguei à megalópole em 2001. Primeiro fascínio, como a todo caipira: o metrô. Já tinha 21 anos. O ruído ensurdecedor, a rapidez, a aridez, a impessoalidade. Desde então, São Paulo para mim se metaforizou no metrô; e o metrô, em São Paulo. O tom cinzento, rosário indefível de freios e aceleração, paqueras, pastinhas, platitudes, a mistura de classes, a eficiência sobre todas as coisas.
O primeiro endereço foi um hostel na Praça da Árvore. Era distante do meu destino diário, a Folha de S.Paulo, no centro, onde pleiteava vaga de trainee. Mas era perto do metrô, e paulatinamente [paulistanamente] essa palavra foi adquirindo poderes panacêuticos. “É perto do metrô?”, eu perguntava, a qualquer sinal de deslocamento. Fosse festa, fosse trabalho, fosse comentário aleatório, me confortava com a possibilidade de chegar de metrô – não importavam as quantas baldeações.
Por anos, a propósito, fui irracional no uso do metrô. Preferia as três baldeações diárias [Brigadeiro-Paraíso-Santa Cecília] a qualquer outra alternativa. Demorou para que eu desmamasse do metrô. Tempos até que me arriscasse com ônibus, e ainda mais para assumir os riscos do volante – ainda hoje, raramente sem acionar o GPS, que uso como criança que se conforta em rodinhas de bicicleta. A maioridade, em São Paulo, é atravessa regiões de carro, cruzar as ligações leste-oeste, norte-sul.
Como repórter, fui muitas vezes à periferia e aos mais recônditos recôncavos do ABC. Mas sempre com motorista, que aliás se divertia de minha desorientação: hoje vamos a Parelheiros. É perto do Pari?
Na semana passada dirigi até o SESC Belenzinho, a quase 20 km da minha casa. Sozinho. Era noite e chovia torrencialmente. Foi a minha primeira vez [de tantas primeiras vezes no convívio com a grande cidade]. O processo de urbanização, enfim, se completava em mim.
Entre os sinais de enchente, áreas alagadas, ônibus desgovernados e taxistas inquietos, avancei resoluto por dezenas de avenidas, ruas, faróis apagados. A cidade, colossal, convulsionava em água. E eu deslizava, epifânico, sobre lâminas escorregadias.
Levei uma década para entrar em São Paulo.
Desgraça completa
janeiro 17th, 2012 § Deixe um comentário
A maior ameaça à diplomacia na década que se inicia não virá de wikileaks ou dos [exóticos] hábitos chineses. Não virá de um ditador nuclear de baixa estatura ou de uma erupção do Eyjafjallajökull. Nada disso. A maior ameaça à paz entre os povos, e, sobretudo, entre os casais, está mais próxima do que o apocalipse maia, mais acessível que o Irã:
morreremos todos por culpa dos celulares.
Não, não falo da radiação que, segundo uns, provoca câncer. [Segundo outros, tudo provoca câncer, sobretudo viver. Então esqueçamos o câncer por ora.] O verdadeiro mal, bem o sei, é o bendito recurso de autocompletar.
Ministros tuítam durante reuniões importantes. Astros do cinema e da música influenciam milhões de seguidores. Divas hollywoodianas atam, desatam e reatam romances. Amigos, paqueras: todos batem papo, marcam encontros, colam nas provas e discutem os rumos da humanidade pelas teclas de um celular.
[Falar, de repente, ficou bem fora de moda.]
Mas eis que, no meio daquela mensagem crucial, de cujo entendimento depende o rumo da humanidade – ou do seu sábado à noite, o que dá na mesma – sobrevém o autocompletar. Infalível como Bruce Lee.
Não se trata de um erro de digitação, isso não. O erro de digitação, pobre coitado, é uma relíquia de museu. Todos achamos um erro de digitação perdoável e, até, simpático, hoje em dia. Engano infantil, pirraça de QWERTY. Sem drama, sem grandes prejuízos. Inócuo. Um beliscão, apenas, nas orelhas.
Mas o seu primo 2.0, o autocompletar, é tiro à queima roupa. Sem sutileza. Choca. Imagino já diplomatas americanos, franceses, brasileiros, em um futuro que pode ser agora, se comunicando por iPhone, Blackberry e quetais. Tudo corre muito bem, cordialmente, até que: pai vira pau, cara vira vara, deus vira fria, sou vira sei, fofa vira foda, vira vira cura e por aí vai, numa lista infinda de combinações esdrúxulas (em qualquer idioma, como se vê aqui), sem lógica aparente.
Por isso, atenção. Desative-o antes que seja tarde. E não apenas nos comunicadores mas também no preenchimento de endereços de email – afinal, quem nunca mandou uma íntima e constrangedora mensagem para um homônimo quase desconhecido? Desligue tudo. [A menos que queira arriscar e trocar mensagens eróticas aleatórias, ou brincar de poeta concreto com seus colegas de trabalho.]
O autocompletar é, hoje, a maior ameaça à paz mundial. É preciso detê-lo, antes que o serviço esteja: completo.
PS.: Atualização: hoje chamei alguém pelo BBM para jogar City of Heroes. O convite – autocompletado, claro – saiu assim: vamos jogar City of Herpes? Desgraça completa.
O banheiro é o mundo
janeiro 12th, 2012 § 1 Comentário
Esqueça a terapia, o diário íntimo, os sonhos. Não importa se é namorada/o, parente, amigo ou completo estranho: o melhor jeito de conhecer alguém – ou de pôr a nu o que um certo sociólogo chamava de face negativa, aquilo que tentamos proteger do julgamento público – é investigando o seu… banheiro.
Não há nada mais revelador do que um banheiro; onde nos revelamos em barbárie e civilização, nudez e sofisticação. Bem ou mal organizado, repleto de cremes ou de apetrechos embelezadores, limpo ou sujo, amplo ou pequeno, espelhado ou opaco, iluminado ou escuro. Tudo o que precisamos saber do dono da casa estará lá.
E não apenas sobre o dono, mas sobre a casa em si. Em um estabelecimento comercial, por exemplo, deve ser o primeiro local a ser conferido com seriedade – e serenidade. Entrou no banheiro [de qualquer sexo] e se deparou com uma placa do tipo “Não urine no chão”, está pronto o perfil psicológico da instituição.
É típico de beira de estrada, onde também já me deparei com o aviso “Evite constrangimento, alarmes na porta”. Para meio entendedor um placa desenhada à mão já basta. E há também os banheiros públicos unissex, transsex, multissex e ex-banheiros, daqueles que já nem paredes têm mais. Com o perdão de Guimarães Rosa, decreto: o banheiro é o mundo.
No espaço privado a variedade é infinitamente maior. Atenção para os sinais de vaidade extrema (dezesseis tipos de creme, xampus de todas as variedades, embalagens que não falam português), desleixo (um sabão, de coco, resolve barba, cabelo e bigode), imaturidade dermatológica (só produtinhos para o bebezinho manter a pelezinha limpinha e cheirosinha), estranhas doenças-de-toilette (quantas pílulas caem ao abrir o armário espelhado? quais as cores das tarjas?), marcas enigmáticas no espelho, ou, alerta máximo, sinais de propaganda enganosa: muita maquiagem, base, pó compacto e os mais hollywoodianos produtos, categoria “efeito especiais”.
Nesse caso, melhor usar o último dos recursos que o banheiro oferece [saída indicada apenas para andares baixos]: a janela.
Dr. Google
janeiro 10th, 2012 § Deixe um comentário
Pode ser cansaço, pode ser estresse, pode ser câncer. Pode ser unha encravada, pode ser torção, pode ser síndrome neurológica. Pode ser tédio, pode ser sono, pode ser deficit de atenção.
Desde que descobri que é mais rápido e barato consultar o Dr. Google do que ir ao clínico geral mais próximo, vivo em permanente estado de pânico. E pânico com filhos, o que é muito pior. Trinta e nove graus de febre numa criança: procure o pronto-socorro imediatamente, pode ser meningite.
É claro que, como para tudo na vida, o tempo também é implacável com os diagnósticos virtuais. Estou vivo pelo menos desde 1996, quando a Internet chegou a Curitiba com seu progressivo e persistente arsenal de opiniões sobre tudo. Vivo e, ao que saiba, sem males crônicos – nada além de um blog, portanto.
Ainda assim, vivo em permanente estado de atenção. A chance é ínfima, mas vai que. A dor de cabeça, por exemplo, pode mascarar doenças graves: infecções do sistema nervoso central, processos inflamatórios dos vasos, hipertensão arterial grave, sinusites, alterações metabólicas, efeitos de drogas, malformações congênitas, traumatismos da cabeça e pescoço, segundo me diz um certo site.
Site dos mais respeitáveis, ressalte-se. Porque se vamos ao Dr. Google, melhor evitar algumas de suas armadilhas. Fóruns de discussão, por exemplo, ou serviços como o de perguntas e respostas do Yahoo!, em que muito marmanjo com o fundamental incompleto não apenas diagnostica o mal como ainda passa a receita. Dor de garganta? “Eu tava tomandu muitos antibiótico fortes por issu vou tomar so naturais agora“, diz a especialista, que em seguida ensina a fazer a gororoba mágica: misture ” um litro de vinho branco seco; um quilo de mel; tres semntes de sucupira cinco gramas de cravo; cinco de canela; uma nosnoscada ralada; deixa curtir dez dias e toar uma colher tres vezes ao dia“.
Tudo na internet tem cura – em especial o tédio.
Só o português, sofrível, não tem remédio.
Eu, Robô
janeiro 8th, 2012 § Deixe um comentário
Eu não sou humano.
Sempre vivi imerso em dúvidas, a vida inteira um bambolear em incertezas. A carreira, o amor, o destino: esquerda ou direita? Adiante! Nos momentos mais agudos, Manoel de Barros consolava: “Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que fui salvo”. Bem, se ele o foi, talvez houvesse esperança para mim também. E assim, sem me achar, seguia.
Mas nunca tive dúvidas quanto à minha humanidade. Até descobrir que sou um robô.
Um robô. E mal intencionado, talvez cheio de vírus. Spammer? Fui desmascarado pelo CAPTCHA.
CAPTCHA, é preciso explicar a você, caro humano, é a pavorosa sigla de Completely Automated Public Turing Test to Tell Computers and Humans Apart (Teste de Turing Público Completamente Automatizado Para Diferenciação Entre Computadores e Humanos). Pensando bem, a sigla é boa. Qualquer coisa é boa perto desta descrição por extenso. Se me dissessem que eu seria submetido a um Teste de Turing Reverso (outro nome do CAPTCHA), eu correria até a Venezuela para pedir asilo político.
Bem, trocando em miúdos para você, humano, o CAPTCHA é o teste que sites nos impõem quando queremos baixar um arquivo, enviar um formulário ou e-mail e realizar outras tarefas triviais. Seu objetivo é de uma simplicidade tocante: descobrir se é um homem ou um robô quem está interagindo com o site. Até aí tudo bem.
Acontece que os CAPTCHAS ficaram tão complexos – porque os robôs ficaram certamente mais inteligentes – que repetidamente me decretam inumano. Sim, tenho fracassado em desvendar as letras borradas, sobrepostas, distorcidas, estampadas e comprimidas. Uma, duas, três vezes. Deram-me até uma colher de chá, posso agora também ouvir o CAPTCHA. Mas não adianta, nem assim logro resultado. Fui desmascarado pelo CAPTCHA. Talvez não tenha sido sempre assim, penso, às vezes, enquanto olho o horizonte e rememoro a infância. Talvez num outro tempo eu tenha sido mais humano, num tempo em que amigos decoravam números de telefone (fixo, claro), em que não havia celulares, em que os computadores domésticos eram apenas máquinas de calcular gigantes com telas de fósforo verde: sem e-mail, sms, mms, 3G, 4G, email, internet e parafernálias.
Mas: talvez a minha mãe soubesse a verdade, talvez pudesse resolver esse enigma! Ansioso, corri para o computador. Escrevi: as dúvidas mais profundas expressas com singeleza. Mas muito tarde; o CAPTCHA vetara minha mensagem.
É solitária a vida dos robôs.
As modelos são ridículas
janeiro 6th, 2012 § Deixe um comentário
Muito se fala sobre o olhar das crianças, a pureza do olhar das crianças, a beleza do olhar das crianças, sua inocência, sua transcendência.
Pois vou falar de novo.
Por vezes, adultos, achamos as crianças ridículas. Adolescentes, certamente, envergonham-se de seus irmãos, primos, contraparentes e agregados infantis. Como cutucam o nariz, soltam pum e outras escatologias. Mas as crianças, por sua vez, também não demoram a apontar os nossos ridículos, e então o jogo empata.
Só posso concluir que o ser humano é ridículo, do berço ao túmulo.
Há poucos dias, no feriado de Natal, meus sobrinhos de 3 e de 5 anos estavam perturbando a paz dos adultos. Do jeito que só as crianças sabem fazer; simultaneamente correndo, falando alto, soltando gargalhadas sem motivo, repetindo palavras engraçadas apenas pelo fato de serem, bem, engraçadas: bombeiro? Por que bom-bei-ro?
Num momento epifânico, contudo, o menino mais velho tira das mãos da mãe a revista feminina que esta lia com interesse. Por que tanto interesse por aquilo?, deve ter se perguntado. Começa a folhear, chama o caçula para o seu lado, e o caçula ali se materializa antes que o convite esteja devidamente verbalizado, na velocidade das crianças, que, como todo pai sabe, supera em muito a do pensamento.
Na segunda página, desata a rir. Constata: a mulher da foto parece uma palhaça. Por que está naquela pose? E com aquele olhar? E com aquela maquiagem?
Exaspero-me, mas ela é linda. Uma modelo…
Mas as crianças prosseguem, não perdoam nada. Todas as mulheres ali, decretam, estão ridículas. Gargalham histericamente, já. Por que as mulheres da revista trançam os corpos, abraçam as pernas, passam o joelho ao lado da orelha e arrematam com o dedinho na boca?
Exaspero-me novamente, mas como? E por que não param de rir? São todas modelos maravilhosas, bem pagas, estrelando anúncios de marcas luxosas, e.
Mas não importa. Riem e riem cada vez mais alto, retrocontaminando-se. A risada aguda rapidamente trinca as minhas convicções. Deixa ver. Mas será? Olho a revista com outros olhos, e: é mesmo engraçado.
Aquilo que julgamos, por alguma programação cultural, extremamente sexy, pode ser apenas ridículo, se visto mais de perto. Poses retorcidas, maquiagem demais, biquinhos e dedinhos e pezinhos para lá e para cá. As mulheres de verdade não são assim, explica o sobrinho de 5 anos, e por isso aquelas fotos eram bobas – e engraçadas. Aquilo, explica-me, são personagens de historinhas para adultos.
Em minha defesa, na defesa de minhas magazine-fantasias, eu poderia dizer muitas coisas, mas todas soariam ridículas também. Ele tinha razão, aquelas mulheres não eram mulheres, eram personagens iguais aos dos seus livros infantis.
Tinha razão, mas em alguns anos estará seduzido por elas, como o resto de nós.
Aeromoças não têm pontos finais
janeiro 4th, 2012 § 2 Comentários
Aeromoças – tenho certeza de que o termo deve ter se tornado politicamente incorreto em algum tempo, mas vá lá: aeromoças – passam por um treinamento rigoroso. Li em algum lugar que até cursos de sobrevivência na selva fazem; em caso de queda, em qualquer ambiente que seja, estão teoricamente preparadas para tudo. Decoraram o Manual (em vários idiomas, em caso de desastre – aéreo – com um turista japonês a bordo). Leem o cartão de instruções emergenciais cem vezes ao dia. No tempo livre, ensaiam diante do espelho: braços bem abertos que se curvam subitamente para apontar as saídas no fundo da aeronave, no meio da aeronave, na frente da aeronave.
Máquinas de sobrevivência com blush. Mas.
O que me deslumbra nas aeromoças não é o fato de elas serem como Rambos em vestidos cafonas, nem a quantidade de maquiagem que se sobrepõe à pele (existe até a história da aeromoça que, demaquilada, revelou-se um pálido cadáver: morrera havia cinco anos e continuava exercendo suas funções normalmente, à base de base, batom e rímel). Não.
O que me surpreende é o seu treinamento fonético.
Isso, o treinamento fonético. Fonoaudiológico. Gramatical, talvez. Semântico? Em miúdos, a maneira como falam e, em especial, como anunciam os avisos da cabine. Repare: na língua das aeromoças não há pontos finais.
Nenhum ponto final.
É difícil reproduzir em texto escrito um engendro fonético tão sofisticado, mas observe que em todo e qualquer voo, de qualquer companhia, não existem pontos finais. Talvez seja um jeito subliminar de manter os passageiros confortados, de evitar o inevitável: a sensação de que cada voo, todo voo, é um ponto final em nossas trajetórias.
Mas, como não sou daqueles que buscam explicação em tudo, deixo-me apenas assombrar com aquela maravilhosa entonação.
À chegada, a comissária (seria esta a expressão politicamente correta?) anuncia:
- Senhoras e senhores bem-vindos… a São Paulo… céu encoberto… a temperatura é de… vinte e quatro graus,
E é isso. Apenas isso. Vírgulas no lugar de pontos finais.
Na hora do lanche – que mereceria outro comentário, mas não vamos tergiversar:
- Senhores passageiros vamos dar início ao serviço de bordo com água, coca-cola, guaraná, suco de laranja,
Apenas isso, novamente. Não há mais nada.
Cartesiano, não posso deixar de ficar inquieto nessas horas.
O que?, eu me pergunto. O que vem depois da laranja? Eu não sei. Talvez, apesar de todo o seu rigoroso treinamento, nem a aeromoça saiba. Ninguém nunca saberá. A vida é mesmo um mistério,


